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abr 04

Mortificatio – O que deve morrer para dar lugar ao novo (Texto 8)

 

Jung considerava a Alquimia muito ligada a aspectos psicológicos. Entrando nesse terreno, é importante dizer que as convicções religiosas de Jung não estão em questão, por isso já pontuei que o enfoque dado é o psicológico.

No mundo ocidental temos a nítida polaridade entre o bem e o mal, herdada pelas religiões cristãs. Para Freud, a religião era algo pernicioso e comparada à neurose obsessiva. A ciência era a última palavra e as pessoas só se apegavam à religião porque eram ainda muito infantis. A religião consolava o homem imaturo diante de seu desejo infantil de ter uma proteção diante da imensidão da vida. O ego não dá conta de se defender contra os impulsos obsessivos e cria rituais para controlar a angústia – o que para Freud equivale aos rituais religiosos.

Mas da mesma forma que esses rituais não “funcionam”, não dão conta da neurose obsessiva, os rituais religiosos também não dão conta dessa imaturidade. Ainda para Freud, o homem precisa crescer, amadurecer e perceber o caminho da ciência como resposta.

Para Jung, essa questão assume outro contorno: ele valoriza o sagrado e o localiza em tempos mais primordiais. O sagrado coloca o homem em contato com o sagrado arquetípico. Isso não é uma defesa, mas um impulso natural do homem, um impulso à curiosidade, à criatividade, na direção do Self. O ego busca experiências que o ulrtapassem – experiências numinosas.

A única experiência que ultrapassa o ego é o contato com a energia arquetípica, é a conexão com o Self. Conectar-se ao Self faz parte do impulso natural do ser humano, e essa conexão pode se dar no plano religioso, estético, científico.

A partir disso, Jung vai fazer uma análise da religião cristã no Ocidente. A igreja formatou o mundo dividido em duas partes: o Bem (Cristo) e o Mal (Diabo). Essa divisão radical trouxe enorme sofrimento para o homem cristão, pois ele é impelido a se identificar com o bem e o mal deve ser descartado. Em termos junguianos, o equivalente do mal seria a Sombra.

Para Jung, as polaridades não são separadas, e o processo de individuação começa quando a pessoa percebe o mal que há nela – isso significa recolher as projeções e entrar em contato com os conteúdos da própria Sombra.

A proposta de Jung em relação ao “Mal/Sombra” é o confronte e não a repressão. E um dos grandes problemas do homem moderno é não entrar em contato com a Sombra.

E sabemos que toda vez que o consciente reprime algo, surge uma resposta compensatória, para que se mantenha o equilíbrio da psique. Em um nível coletivo, para Jung, essa resposta diante da repressão imposta pelo pensamento cristão foi a Alquimia.

A Alquimia, simbolicamente, é a tentativa de trabalhar o mal, dentro do processo alquímico.

A Opus é formada por três fases – nigredo, albedo e rubedo.

Vamos falar da Nigredo nesse momento. É a fase do escuro total. Mas o alquimista não reprime esse escuro, ele o coloca na obra para que possa transformá-lo. É entrar na noite escura e se manter lá até que possa ter acesso à luz.

Podemos perceber que os polos contrários atuam de forma complementar, por exemplo: toda doença é um caminho para individuação, pois pode mobilizar na pessoa uma energia muito grande em busca da vida, da superação.

O Mal na Idade Média (quando a Alquimia estava nascendo), era identificado com a matéria – “O mundo material era o mundo do pecado”. Somos todos herdeiros do pecado original de Adçao e Eva. Mesmo que a pessoa não acreditasse nessa história, os reflexos da mesma impactavam o seu insconsciente, de forma que todos queriam buscar o paraíso. Nesse sentido, há um desejo de perfeição que impede a pessoa de aceitar a parte ruim de tudo que vem com o que é bom.

E o trabalho de toda uma vida é justamente a integração dos opostos.

Ora, se o mal está na matéria, nosso corpo é a primeira relação que estabelecemos com a matéria. Portanto, isso impacta a nossa relação com o corpo – muitas vezes, essa relação com o corpo é incosciente, há pessoas que não habitam o corpo! E isso implica em questões emocionais, pois a dimensão biológica do ser humano não está separada da dimensão psicológica – portanto, ter uma relação distanciada com o nosso corpo, reflete em nossos sentimentos, nossas sensações e percepções.

Para os gregos, o mundo dos sentidos (matéria), “atrsapalhava”. Com o cristianismo, o corpo (matéria) se transforma em fonte do pecado.

O mal está no corpo, na matéria e no modo de pensar o princípio feminino, pois é a partir do princípio feminino que o homem se aproxima do mundo pela via do afeto, da intuição e da imaginação.

Afeto, intuição e imaginação foram reprimidos pelo modo de penar ocidental e a Alquimia vai resgatar justamente essas três dimensões do humano. Portanto, a Alquimia é o contraponto para se encontrar o equilibrio nesse mundo dicotomizado.

Vamos passar para a análise de algumas imagens:

Nessa figura temos um homem cortado em pedaços, o que significa que temos que temos que separar as coisas para entendermos melhor o que está acontecendo. É um processo doloroso, de tomada de cosciência de coisas que antes passavam despercebidas. Na figura, temos um mouro – o escuro, o diferente. É ele que corta, esquarteja, separa. Ele é o representante da sombra, na Alquimia. A cabeça que ele segura é dourada, resultado desse processo de iluminação. Essa é uma imagem importante que representa o resgate de coisas inconscientes.

Na próxima figura temos a morte do rei:

 

O rei velho está morrendo e o rei novo está nascendo. É preciso deixar algo morrer para deixar nascer outra coisa, é um processo difícil, por isso muitas vezes nos agarramos ao velho, ao conhecido, mas qe não tem mais utilidade. Isso que é velho hoje, já foi apropriado, ma a vida mudou e requer novas percepções. Esse é o momento que pode surgir o medo de arriscar algo novo, e isso traz sofrimento, pois não deixamos a libido fluir. O medo de mudar é a falta de conexão com o Self. O ego se sente abandonado, sem saber o que fazer. Nesse processo, precisamos enfrentar a morte de algo que já foi bom e que precisa mudar.

A imagem seguinte apresenta a sombra de uma figura humana, com três cores (preto, branco e vermelho) e um anjo. A sombra é a prima matéria, aquilo que precisa ser trabalhado e passar pelas três fases da Opus – nigredo, albedo e rubedo. O anjo representa o princípio espiritual da Alquimia, princípio transformador. É preciso confiar que o anjo virá, na forma de intuição, inspiração, inconsciente criativo, e ao se manifestar acontece a integração.

A Mortificatio é o afastamento do Self, a noite escura da alma, quando a pessoa não vê saída e precisa acreditar em algo. Esse algo está dentro dela, e será constelado em uma atitude de entrega.

Na quarta figura, temos a árvore filosófica. Aqui, temos a tarefa do alquimista que é resgatar o espírito da natureza. Temos dois alquimistas, um vestido de vermelho e outro de branco, que representam as fases rubedo e albedo, respectivamente, e um ajudante, vestido de preto – nigredo. Esse resgate é um trabalho processual e passa, necessariamente, por todas essas fases.

 

A quinta figura representa a brincadeira da criança, que é o momento da obra em que você já fez tudo e o que resta é esperar as coisas acontecerem. É uma fase ligada ao feminino, à natureza que não pode ser apressada. Todas as coisas amadurecem ao seu tempo – é assim na natureza e é assim em nós também!

Precisamos saber esperar, descobrir uma espera que pode ser lúdica, leve. Quando sabemos que esperamos e temos consciência do por que e para que esperamos, vivemos uma espera sábia e preciosa.

A próxima imagem nos mostra a Alquimia como uma mulher, que mantem um pé em cada forno alquímico. Mediadora entre todos os opostos, a árvore filosófica, é Sophia, noiva dos filósofos e alquimistas. Novamente aqui podemos observar atributos do feminino: saber esperar, ouvir seu interior, ter calma e acolher conteúdos inconscientes.

Na sétima figura, temos abaixo o alquimista, o forno e sua companheira. Energia masculina e feminina consteladas para obter o equilíbrio – plano egóico. No plano superior se constela a energia arquetípica. Temos o vaso alquímico, onde as coisas são gestadas e o sol, que representa a consciência iluminada. E os anjos, são o princípio espiritual.

E para fechar esse post, deixo alguns conselhos dos alquimistas, para lidar com o nigredo, a Sombra. Lembrando! O processo de individuação começa com o enfrentamento da Sombra.

PACIÊNCIA

Jung diz para termos cuidado com o que abandonamos, pois o que abandonamos se torna desumano. Podemos exemplificar pontuando a repressão, que é uma forma de não lidar com o que incomoda. Se eu não acolho um conteúdo, ele é reprimido e vai apodrecendo dentro de mim. Tudo tem que ser transformado dentro de nós, mas temos que ter paciência, pois esse é um processo que demora… enquanto não trabalhamos nossos conteúdos reprimidos, ficamos reféns deles.

AMPLIAR OS PONTOS POSITIVOS PARA LIDAR COM O MAL

É o trabalho oposto. Se ficamos olhando muito para o mal, podemos ser engolidos por ele, porque o mal é fascinante, simplesmente porque são coisas que temos dentro de nós e precisamos trabalhar com elas.

Uma forma de trabalhar esse contraponto é através do trabalho corporal – relaxamento, por exemplo: leva a pessoa para um outro lado, mais sutil, mais criativo. Abre-se uma porta para um sopro de ar fresco entrar. Não é nada racional, mas a pessoa já fica diferente. Só pela palavra, falar sobre, falar, falar… muitas vezes não é alcançado o mesmo resultado que pode ser alcançado com um relaxamento e um trabalho arteterapêutico, por exemplo. Ao ficar só na fala, corre-se o risco de reforçar o logos, o discurso racional, e não entrar, de fato, em contato com aquilo que é importante.

PERCEBER A UNILATERALIDADE

Quando a reação emocional for exacerbada, apontar isso. O mesmo deve acontecer com a racionalidade. Perceber esse desequilíbrio já é uma possibilidade de mudança.

IDENTIFICAR AS VOZES SABOTADORAS

Os mitos e os contos de fadas falam muito desse aspecto (as irmãs invejosas da Cinderela ou da Psique, por exemplo). Para crescer, a consciência tem que ver as coisas, tem que enfrentar os desafios. Por outro lado, existem as vozes sabotadoras: “Ah! Mas isso você não vai conseguir!” Sempre existe um lado que puxa para trás. Existem as vozes prudentes, que são a nossa intuição, mas existem as outras que constituem o nosso movimento de autosabotagem. Saber diferenciar tudo isso é um trabalho imenso! Cada um precisa perceber que está dentro de si a condição de crescimento, independente das condições favoráveis ou desfavoráveis que o meio externo pode oferecer. Cabe a cada um aprender a lidar com essas condições da melhor maneira possível!

E por fim, NÃO DESANIMAR COM OS RETROCESSOS, afinal, nosso caminho não é uma linha reta, e sim uma jornada cheia de curvas, altos e baixos, desafios que nos ajudam a crescer e descobrir os caminhos para a nossa transformação interna. É realmente um belo trabalho!

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