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jun 05

Operações Alquímicas – Coagulatio e a função Sensação

Neste texto, começarei a falar das operações alquímicas traçando uma correspondência com as funções psicológicas descritas por Jung em sua tipologia. O processo de individuação pode ser considerado como uma busca pela integração das quatro funções (Sentimento, Pensamento, Sensação e Intuição), para se chegar ao centro – Self, ou à Pedra Filosofal.

Sabemos que a energia psíquica atua de forma polarizada. Se ela está concentrada em uma função, a oposta ficará em falta. Para trabalhar esse equilíbrio em um processo arteterapêutico, propomos atividades que se relacionem inicialmente com a função principal, indo em direção às funções complementares até chegar na função inferior.

vamos começar falando sobre a função Sensação (relacionada à operação alquímica Coagulatio): a sensação tem um aspecto instintivo básico. Em nosso desenvolvimento, começamos a entrar em contato com o mundo através de nossas sensações: tocar, cheirar, ouvir, ver, sentir o gosto… essa é a maneira de nos conectarmos com a realidade, e depende apenas de nossa energia vital.

O mundo é concreto, é material, objetivo. Como consequência, o ser humano desenvolve a capacidade de agir de forma prática. O excesso de praticidade pode conduzir alguém a um materialismo absurdo! Todo mundo conhece pessoas assim, imagino! Já quem não tem a função sensação bem desenvolvida pode encontrar dificuldade em tomar decisões, em encarnar em uma ação, está sempre na dúvida.

Os sentidos estão ligados a aspectos simbólicos:

Visão: percepção visual, registro de objetos para que cada um possa se situar no mundo / Ver: compreender além das aparências – capacidade de ver subjetivamente. “Olha para mim enquanto estou falando” – a importância do olhar. Os olhos como janelas da alma. O terceiro olho: visão que transcendeu a dualidade.

Audição: registro de sons e ruídos do mundo – entender e prestar atenção. Falar é escutar a si mesmo (e essa ideia ganha um destaque fundamental no âmbito psicoterapêutico) / escuta interna, fala compreensiva que atinge o outro, mas também a si mesmo. “Falar no deserto”: fala que não é ouvida, não há retorno da escuta do outro. “Falar demais, sem dizer nada”. Valorizamos muito a palavra, o que nos leva a discussões cada vez mais complexas, pois “é bonito falar difícil!”. O que percebemos é um vazio nas falas prolixas, na escrita acadêmica… precisamos desenvolver a escuta e para isso é necessário abrir espaço para o silêncio, pois nossa sociedade anda barulhenta, ruidosa. Ninguém ouve nada!

Paladar: encontramos muitos significados simbólicos para o doce, o amargo… enfim, experiências doces são sempre as mais gostosas! São aqueles momentos em que desfrutamos de algo desesado, suave, delicado. Já as experiências amargas estão relacionadas a lembranças dolorosas. E quando “engolimos sapo”! É uma experiência nada agradável, de difícil digestão.

Olfato: é uma sensação muito remota, ligada a uma parte muito primitiva do cérebro. QUando desconfiamos de algo, costumamos dizer: “Algo não cheira bem!”. “Ter olfato aguçado” – capacidade de sentir, intuir algo. A intimidade sexual passa pelo cheiro do corpo da outra pessoa.

Tato: ligado à sensibilidade tátil, afeto, carinho, criatividade, habilidade de manusear as coisas com precisão. Existe o toque de cura e também aqueles que tem o “dedo verde” (pessoas que sabem cuidar muito bem das plantas).

Podemos perceber que atribuímos muitos significados simbólicos aos nossos sentidos.

E os nossos sentidos, enquanto função sensação, estão ligados à Coagulatio, pois esta consiste em tornar algo líquido ou gasoso em sólido (matéria, mundo concreto, elemento terra). Aprender a lidar com a matéria é fundamental. É importante sabermos materializar nossos planos, realizar nossos sonhos, torná-los sólidos e presentes em nossa vida. Jung usa uma expressão interessante, nesse sentido, ele diz que o arquétipo quer viver, quer tomar forma no mundo, precisa coagular!

E como concretizar ações no mundo, de forma equilibrada? Como adaptar nossos sonhos a uma possibilidade prática, sem perder o sentimento envolvida nisso?

Nossa civilização é super materialista, mas não sabe lidar com a matéria! Percebemos um desequílibrio absurso! O apego às aparências – do corpo ideal, da vida ideal, a busca em ter cada vez mais, ter posse das coisas, e nesse movimento, a chance de alguém se ver perdido é muito grande.

Outro ponto importante diz respeito a assumir a responsabilidade pelos próprios atos – o que muitos não conseguem fazer! A Coagulatio diz sobre agir e ser responsavel por essa ação. Quando isso não acontece, a pessoa fica sem raiz, não tem uma base sólida para se apoiar, falta chão, falta terra!

Quando uma pessoa vive só em função de atender suas necessidades materiais ela se torna embrutecida. Temos que trabalhar com as outras funções (pensamento, sentimento e intuição), para trazer o equilíbrio na dinâmica existencial dessa pessoa e o acesso mais profundo ao seu incosciente.

Vamos observar algumas imagens sobre essa temática. A primeira é a Venus de Willendorf.

Essa é uma imagem arquetípica, ligada à terra, à fertilidade (destaque para os seios e quadris), conexão com os instintos, reprodução e preservação da vida, em um sentido bem concreto. Mas a fertilidade não é só biológica, é simbólica também – de que forma utilizamos nossa criatividade em prol da evolução humana?

A próxima figura é uma escultura do artista Aristide Maillol, La Rivière,contemporâneo de Rodin.

Ele retrata o peso do corpo feminino, que chega a ter características quase masculinas. É uma figura fort, que se faz presente, necessariamente.

Outras obras de arte que retratam a operação Coagulatio, a função sensação e o elemento terra são as naturezas mortas.

E na próxima figura, temos uma gravura egípcia que enaltece o ato da agricultura.

Sabemos que a agricultura foi um imenso avanço para a nossa humanidade, que deixou de ser nômade, para se estabelecer na terra e formar as primeiras grandes civilizações. Cultivar a terra também pode ser entendido simbolicamente – como cultivamos a nossa própria terra? Como trabalhamos para realizar os nossos planos, para nossos sonhos desabrocharem?

A imagem seguinte é de Gustave Courbet, e mostra duas moças, uma mais relaxada, entregue à terra. Nos faz pensar na importância de abandonar-se a terra, sentir o chão, pisar firme, ter segurança, e simplesmente se entregar ao ciclo da vida que ela nos oferece.

No quadro a seguir temos As Banhistas, de Jean-Auguste Renoir.

Reparem nas formas arredondadas do feminino, que hoje é execrado em prol de uma estética totalmente anti-natural. Também temos o peso como característica forte nessa pintura.

Degas era um pintor que retratava cenas do cotidiano. No quadro abaixo, temos uma passadeira que parece estar totalmente integrada ao seu trabalho, sem sofrimento. Parece estar em paz consigo mesma, em seu cotidiano. O elemento terra relaciona-se à capacidade de trazer o prazer nas pequenas coisas, a entrega, a alegria, a presença relaxada.

Enfim, a operação Coagulatio nos convida a entrar na dimensão da matéria e sentir que ela é animada pelo nosso espírito. Assim, podemos sentir o nossos corpo energético, pois somos luz como as estrelas. Não somos matéria opaca, não somos algo morto. É a vivência que temos, em alguns momentos da vida, que nos faz sentirmos preciosos.

Portanto, Coagulatio se relaciona com concretizar, realizar, tornar algo sólido.

 

 

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