mar 15

Dia Internacional das Danças Circulares Sagradas – 14/03/2017

 

Comecei a dançar em roda há pouco mais de dois anos, e me apaixonei no exato momento em que, de mãos dadas, fui conduzida pela força do círculo, pela música dos quatro cantos do mundo e pelos passos cheios de sentido. Entendi que ali algo muito especial acontecia, e que nem sempre pode ser nomeado, basta ser vivido.

Ontem, dia 14/03, comemoramos o Dia Internacional das Danças Circulares Sagradas. Não consegui postar esse texto ontem, mas corri aqui para deixar minha homenagem a esse movimento tão lindo e singelo.

A partir da minha participação em grupos de Danças Circulares, tenho tido muitas surpresas agradáveis: pessoas que despertam para vida, sentimentos acolhidos através de mãos dadas, conscientização do cuidado com o planeta, integração com o nosso centro, olhares expressivos que se comunicam sem palavras, mas através de uma fala que vem do coração. Dançar em roda é resgatar nossas raízes, acordar nossa criança interna, descobrir cantinhos escondidos dentro de nós mesmos, abrir-se para o outro e ter a oportunidade de ser acolhida por ele.

É incrível o poder que tem um grupo de pessoas que dançam de mãos dadas em círculo! Talvez porque a dança seja uma das manifestações humanas mais antigas. Isso é um fato que a arqueologia nos mostrou através das pinturas rupestres de rodas de dança, as quais possivelmente tinham um caráter ritualístico, sagrado. Avançando no tempo, constatamos a presença da dança em momentos importantes como: nascimento, morte, casamento, comunicação com os deuses, época das colheitas, entre outrosm de acordo com a cultura de cada povo.

Bernhard Wosien, bailarino e coreógrafo alemão, nos anos 60, começou a se dedicar ao estudo das danças tradicionais de diversos povos, e em 1976 foi convidado a ensinar essas danças em uma comunidade no norte da Escócia, chamada Findhorn. Foi assim que nasceu o movimento que conhecemos hoje como Danças Circulares Sagradas.

O movimento chegou no Brasil em 1987, apresentado por Carlos Solano Carvalho, que morou em Findhhorn durante seis meses, mas ganhou força mesmo a partir de 1995, com a focalizadora Renata C. L. Ramos e Sirlene Barreto. Hoje podemos encontrar focalizadores de DCS em diversas cidades do país.

Não há limite de idade: dançam crianças, jovens, adultos e idosos. Não há o passo errado ou o “ter que saber dançar”, e sim a vontade de dançar.  Segundo Maria Angélica de Melo Rente, “Seu poder de integração e resgate do sagrado na vida cotidiana fez com que as Danças passassem a ser utilizadas em diferentes contextos, entre eles o educacional, o corporativo e o da saúde”.

Com esse texto, quero prestar a minha homenagem a todos os focalizadores de Danças Circulares Sagradas, principalmente os que conheci e tive o prazer de dançar de mãos dadas – todos muito especiais e queridos!

E para fechar o post, uma curiosidade: o dia 14/3 foi escolhido como Dia Internacional das Danças Circulares por fazer referência ao número “Pi”, aquele que aprendemos nas aulas de matemática, o 3,14. Segundo Renata Ramos “O dia escolhido está diretamente conectado à geometria, à serie Fibonacci, que na literatura é representada pela letra grega PI. Muito resumidamente, essa medida áurea traduz a beleza da natureza e sua evolução em espirais. Olhando para um girassol ou uma margarida é possível entendê-la”.

 

Escrito por Anna Paula R. Mariano

mar 06

UMA POSSÍVEL COMPREENSÃO FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL DA CLÍNICA PSICOLÓGICA

Texto escrito por Carmem Lúcia Brito Tavares Barreto (Doutora em Psicologia, Professora adjunta da Universidade Católica de Pernambuco vinculada ao Programa de Pós-graduação – Mestrado em Psicologia Clínica, coordenadora do LACLIFE- Laboratório de Psicologia Clínica Fenomenológica Existencial e pesquisadora do CNPq- integrante do Grupo de pesquisa em Psicologia Clínica)

 

Hoje compartilho um artigo muito interessante sobre a Psicologia Clínica na abordadem Fenomenológico-Existencial:

 

A intenção primordial deste ensaio é apresentar uma reflexão de como a Analítica Existencial de Heidegger poderia fecundar a clínica psicológica, aqui compreendida como espaço aberto, condição para emergência dos fenômenos clínicos na sua singularidade e força de apresentação, as quais, por sua vez, exigem modos correspondentes de acolhimento, interpretação e ação.

É importante ressaltar que não é nosso objetivo aplicar as concepções de Heidegger acerca do humano como um conhecimento sistemático do qual derivam modos e métodos de intervenção clínica. Trata-se, sobretudo, de deixar-se afetar pela mediação heideggeriana, de deixar-se encontrar com o pensamento heideggeriano como outra possibilidade de acolher e compreender a demanda clínica deixando-se afetar por ela e, a partir deste acolhimento, conceber possibilidades de como responder a ela.

Tal demanda perece suscitar um cuidado de si marca fundamental na Antiguidade, da experiência ética, gradativamente esquecida e silenciada pela modernidade, que, ao instituir uma outra ética, passa a enfatizar categorias de subjetivação e de tecnologias de si. Como resultado, deparamo-nos com a produção de práticas clínicas que, destacando a dimensão das técnicas, são marcadas pela filosofia do sujeito numa tradição metafísica. Nessa filosofia, segundo Birman (2000), a verdade do sujeito se inscreve na produção da subjetividade, concebida como a exigência de saber sobre si.

Partindo de tal compreensão, Birman (2000), levanta uma questão extremamente importante que incide sobre a constituição das práticas clínicas ao apontar para dois pólos constitutivos, o cuidado e o saber de si, como possibilidades diferentes de conceber e efetivar a ação clínica.

A clínica psicológica, ao assumir como pressuposto o cuidado de si, compromete-se em manter contato estreito com a experiência do cliente, renunciando as posturas de controle e de previsão do processo clínico. Para firmar essa posição clínica precisa efetivar a passagem do espaço psicológico atrelado à dimensão da ciência moderna – com projeto epistemológico regido por versões normativas e judicativas – para outro espaço de constituição da psicologia que enfatize a dimensão ética dos discursos e da prática psicológica.

Assim compreendida a clínica vincula-se à linguagem como possibilidade de levar algo à luz, trazer algo para a des-ocultação. Nesse processo, a linguagem é desvinculada da noção de instrumento complexo de representação de objetos por parte de um sujeito, apoiada no pressuposto de que os sujeitos e suas experiências preexistem a qualquer articulação da linguagem. Com Heidegger(1989) e Gadamer(1997), a linguagem é tomada como meio universal de experiência, compreensão ancorada no entendimento heideggeriano de linguagem – ato de nomear -, a qual pode instalar o ente na clareira do ser e abrir para ele o que aparece como imprecisão e inquietação, já que, originalmente, dizer significa “mostrar”. Diante de tal perspectiva, a linguagem apresenta-se como meio onde estamos imersos, constituímo-nos e onde os objetos de nossa experiência se constituem.

Nesse contexto, a linguagem refere-se à língua – meio no qual estamos imersos e nos constituímos -, pois não existimos, senão no-mundo e na-língua. O mundo-língua, na situação clínica, não tem dimensão regulativa, mas sim constitutiva, e transita pela dimensão poética da fala, suscitando distinção entre a fala do cotidiano e a fala poética. A primeira nutre-se do “impessoal”, no qual se vive a maior parte do tempo como abrigo para exorcizar a angústia e fugir da inóspita responsabilidade de encarregar-se de sua própria decisão e mistério. A segunda, fala poética (poiesis), abre-se como disponibilidade para a escuta do que não está plenamente disponível, des-velado; solta a linguagem para a aventura de des-cobrir e recriar o sempre novo de si e do mundo.

Essa linguagem busca encontrar o interlocutor em seu espaço de liberdade: “quando me expresso poeticamente, o outro não é obrigado a concordar comigo […] no entanto, tenho uma grande expectativa de que ele possa me compreender, dentro da não-necessidade de compreender” (POMPÉIA, 2004, p. 158). Configura-se, assim, o acontecer clínico por meio da linguagem da poiesis. Nesse âmbito da linguagem, a compreensão acontece no diálogo, via afetação e disponibilização, o qual exige co-respondência, consenso hermenêutico e ação.

Tal compreensão, ao superar a hegemonia do pensamento representacional e a noção de verdade como adequação e correspondência, remete ao entendimento de linguagem desvinculada da noção de instrumento complexo de representação de objetos, apoiada no pressuposto de que os sujeitos e suas experiências preexistem a qualquer articulação da linguagem e remete à dimensão hermenêutica da linguagem.

De acordo com Váttimo (1996, pp.143-144), “ao pensamento da explicação, Heidegger opõe agora o pensamento hermenêutico como escuta da linguagem na sua essência poética (isto é, toda a linguagem na sua força de abertura e fundação)”. Nessa perspectiva, a hermenêutica interpreta a palavra sem a esgotar, respeitando-a na sua natureza de permanente reserva. Assim, na situação clínica, o cliente se compreende, dá-se a compreender nessa relação, para si e para o terapeuta, abre-se para a experiência que deseja expressar e mantém a dimensão do não-dito como reserva permanente.

A recusa à explicitação total e o conseqüente esforço para construir uma hermenêutica da escuta levam o ato de falar e escutar à possibilidade de “pensar” a própria vida. Pensar, nessa situação, não se vincula ao pensamento que calcula: passa de oportunidade em oportunidade; faz cálculos com perspectivas sempre novas e mais econômicas; não reflete “sobre o sentido que reina em tudo que existe” (HEIDEGGER, 1959, p.13). Pensar, na clínica, aproxima-se da reflexão, no sentido heideggeriano de meditação, cujo significado não se restringe ao estar consciente de algo, mais vai além da consciência cartesiana, constitui-se como base para a atitude possível de “serenidade frente ao mistério”, na disponibilidade para o abandono àquilo que merece ser interrogado.

É esse pensar que carece de cuidados na situação clínica. Tal modo de pensar possibilita romper a armadura dentro da qual habitamos e que se tornou invisível pelo tempo – estrutura que preenche todos os lugares e não deixa espaço para ser eu-próprio singular. A ação clínica pode por em andamento o que já é próprio do humano, ajudando-o a “pró-curar” aquilo de que foge: a morada no sentido e o habitar des-cobrindo ele mesmo e o mundo, relançando-o na sua existência, a fim de que pense a própria vida.

Assim, a situação clínica começa ao se configurar como espaço privilegiado para libertar a fala e a ação submissa aos problemas herdados e ao consenso público. É constituída pelo dizer-escutar, permite o tematizar do sofrimento e o encaminhar do des-mascaramento do habitual. Pode levar à abdicação da “segurança da realidade” e encaminhar a pessoa-cliente para “saber” que habita na interpretação.

Em tal situação, a fala, ao ser vinculada ao ato de nomear, não está articulada à explicação ou à decifração; ao contrario, o nomear, ao dizer o que se mostra no oculto, pressupõe a pré-compreensão ou compreensão não tematizada que funda a interpretação, demandando resposta a algo que solicita.

Tal fala permite o vir-a-ser propriamente que, numa perspectiva heideggeriana, abre-se como um mistério a ir-se des-velando e constituindo aos poucos; dela nada sabemos antecipadamente e, como possibilidade projetada sempre para diante, é imodelável pelo presente. Assim, abre-se como possibilidade para os modos de ser-no-mundo se constituirem, libertando a palavra para o seu dizer outro, não-definível em conceitos ou idéias. Nesse outro dizer, “fenomenologicamente, ser faz sentido diante de se ser mesmo, de se estar existindo e não diante da conceituação” (Critelli,1996, p.127). A configuração mais tangível do apropriar-se do ser, para ser propriamente, passa pela decisão de projetar-se em direção de dar conta de ser, seguindo suas próprias possibilidades. Essa é sua liberdade, implicando um poder de querer ser si mesmo, assumir a possibilidade de ser realizador de cuidados.

Tal fala nos remete à questão da escuta: não é o eu que fala que precisa ser efetivamente escutado. A fim de prosseguir na direção da questão do que é escutar a fala mesma, é preciso compreender o sentido de experiência na concepção de Heidegger. Na dimensão heideggeriana, experiência consiste em ser “afetado” e “transformado” num encontro com o outro na sua alteridade, um acontecimento dramático que supõe o estar instalado num mundo como horizonte de encontros. Esse horizonte, ao mesmo tempo, abre-se para transformações e resiste e se opõe a qualquer captura pelo outro.

Aqui, mais uma vez, a “meditação heideggeriana” convida para um novo encontro com a clínica. Logo, torna-se necessária uma via de encontro que, ao passar pela fala e escuta, nos remeta à “relação” que se estabelece entre quem fala e quem escuta, circunscrevendo as diversas possibilidades de relação com o outro que busca ser acolhido no seu sofrimento – pode ser o cliente de um consultório psicoterápico ou de um hospital; um grupo de pessoas em atendimento psicológico ou um aluno/estagiário em supervisão; ou ainda uma mãe com seu filho ou uma equipe de profissionais de uma instituição. Tal relação permite o contato com a dimensão fenomenológica da experiência, que já inicia seu trânsito, mesmo em um sentido ainda não des-velado.

Nos atendimentos psicológicos a escuta atenta e o disponibilizar-se do psicólogo, mais do que as intervenções verbais de caráter explicativo/racional, se oferecem como “ente-à-mão”, que poderá ser assumido e usado de acordo com a singularidade de cada pessoa, na tentativa de cuidar do que precisa ser cuidado, a sua própria existência.

Essa compreensão de “cuidado” aponta para possibilidades de ressignificação da ação do psicólogo clínico que, ao assumir a clínica como modo ôntico possível próprio de cuidar, se preocupa com o acontecer do cliente. Nessa direção, a prática psicológica enquanto “ação pré-ocupada”, revela-se atenta ao modo de o cliente viver o seu cuidar, a sua existência, a sua história.

Cuidar, convém ressaltar, não pode ser considerado atividade específica das práticas psicológicas. Enquanto manifestação ôntica refere à configuração concreta do modo constitutivo da existência humana que se apresenta como “estrutura de cuidar”. Assim, a clínica como cuidado remete aos modos possíveis de cuidar num determinado tempo e numa determinada situação. Tal ação abre-se para a escuta de um falar de um existente que vai além de uma ação exercida num plano meramente teórico-científico e ou técnico e, ao contrário, exige conversão teórica no sentido de evitar qualquer tentação de “objetivação” da experiência, que funcionaria como paradigma prévio, muito eficaz, mas incapaz de manter-se na abertura à acontecência, portanto “cego” para o fenômeno na sua singularidade.

Nessa direção, “pré-ocupar-se com o outro é não substitui o outro no seu cuidar nem roubar o seu cuidar, mas antecipa-se a ele em seu poder-ser existencial, devolvendo o cuidar a ele. É pôr em claro a possibilidade de estabelecer outras formas de relação e habitar outros mundos, abrindo para o outro a possibilidade de liberdade onde o outro é deixado entregue ao seu poder. Atitude que afirma o cuidado como constituição ontológica do humano, já que “o homem não tem cuidado, é cuidado” (Almeida,1999:46).

Desse modo, a ação clínica busca propiciar ao cliente tornar-se narrador de si mesmo pela escuta atenta do psicólogo, que cuida do exercer de um dizer apropriado e encarnado. O psicólogo clínico atua comprometido com o significado-sentido, apontado na relação com o cliente, agora ouvinte. Tentando manter o transitar, abre a possibilidade para o cliente também se comprometer com a narrativa de sua própria história de vida e caminhar na passagem da vivencia para a experiência, assumindo-se explicitamente, como cuidado, ao vislumbrar um destino possível. Destinar-se é criar um sentido possível, respondendo ao destino.

Caberia, então, a relação clínica acolher o “sentido”, aqui compreendido como destinação, que se aloja nas tramas construídas no modo cotidiano de viver no mundo. O “sentido” nos remete para uma das dimensões de “cuidado”, implicando assumir que o homem existe, cuidando de existir. Nessa perspectiva, toma sob seu cuidado o que pertence a sua existência, o que remete para a maneira como somos “afetados” pelas coisas e ou pelos outros que estão aí, no mundo.

O homem existe lançado no mundo, na facticidade do cotidiano, enredado nas circunstâncias estruturais já interpeladas pelo público. Tem como tarefa, cuidar da própria existência que se apresenta como pura possibilidade e abertura ao ser. Assim, a possibilidade implica ser livre para o mais peculiar poder-ser: entre a responsabilidade de ser, o homem deve, permanentemente, abrir-se para suas possibilidades, dar-lhes sentido e escolhê-las de modo a encaminhar sua existência.

Como homem singular, o poder-ser é livre para modalizar, impropriamente, suas possibilidades cotidianamente como a-fim-dos-outros e também poder acolher criativamente, desde o mundo seu próprio destinar-se (sentido), suspenso em suas possibilidades, existindo a-fim-de-si-mesmo.

Portanto, a ação clínica assim compreendida rompe com o modo de contato construído numa concepção técnico/explicativa, constituindo-se numa disponibilidade para acompanhar o outro (cliente) em seu cuidar das suas possibilidades mais próprias, dispondo delas livremente e com responsabilidade.

Para Medard Boss (1997) a prática clínica pode ser compreendida como

“… o fato dela mesma ser livre e permitir aos homens tornarem-se livres dentro dela. Como psicoterapeutas queremos, no fundo, libertar nossos pacientes para si mesmos […] Com a libertação psicoterápica queremos levar nossos pacientes “apenas” a aceitar suas possibilidades de vida e dispor delas livremente e com responsabilidade” (1977:61, grifos do autor).

Nessa direção, precisa envolver-se com um procedimento co-humano criativo não apreensível por teorias que descendem do subjetivismo e do conceito cartesiano de homem e de seu mundo. Para se alcançar esta nova compreensão, é preciso dar um salto indispensável – do subjetivismo e psicologismo abstrato das ciências humanas, derivadas do pensamento moderno, para uma atitude de abertura ao mundo que ampara e guarda seu aparecimento. Tal salto rompe com as interpretações teóricas fundamentadas numa psicologia subjetivista e tecnicista e assume o modo de ver e conhecer fenomenológico, compreendido como as várias maneiras pelas quais algo se mostra, se desvela, se torna presente a nós (HEIDEGGER, 1989). Assume, também, a compreensão do existir humano, enquanto meras possibilidades de poder-apreender os sentidos daquilo que aparece e se lhe fala, através da maneira própria pela qual se mostra.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, F. M. Aconselhamento Psicológico numa visão fenomenológicoexistencial: cuidar de ser. In MORATO, H. T. P. Aconselhamento Psicológico Centrado na pessoa: novos desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

BIRMAN, J. Entre cuidado e saber de si: sobre Foulcault e a psicanálise. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

BOSS, M. AngústiA, Culpa e Libertação: ensaios de psicanálise existencial. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

CRITELLI, D. M. Analítica do Sentido: uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica. São Paulo: EDUC/ Brasiliense, 1996.

GADAMER, HANS-GEORG. Verdade e Método. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. HEIDEGGER, M. Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget, 1959.

HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1989.

POMPEIA, J. A.; SAPIENZA, B. T. Na presença de sentido: uma aproximação fenomenológica a questões existenciais básicas. São Paulo: EDUC/ Paulus, 2004.

VÁTTIMO, G. Introdução a Heidegger. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.

mar 06

O que você deixou de ser quando cresceu?

Sempre me incomodei com a frase “O que você vai ser quando crescer”, dita para as crianças. É como se ela ainda não fosse, ou não estivesse SENDO! A criança já é inteira em seu mode de ser aqui e agora.Claro que ela vai mudar, vai se desenvolver, vai amadurecer e descobrir outras formas de ser.E o mais intrigante é que algumas características que seriam tão importantes para a vida adulta, muitas vezes vão se perdendo pelo caminho, como por exemplo: a capacidade de brincar, a leveza, o mergulho no momento como se não houvesse amanhã, um olhar descomplicado para as coisas da vida… enfim, quando me deparei com essa imagem, com a pergunta que ela nos apresenta – “O que você perdeu quando cresceu?” – achei tão perfeito, tão profundo, que não podia deixar passar! É uma bela reflexão, que nos conduz ao caminho do encontro com nossa criança interna, no resgate daquilo que esquecemos, mas faz parte de nós

 

fev 06

Movimento

fev 06

Guimarães Rosa

fev 06

Florescer

fev 06

Texto extraído do livro “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” – Sogyal Rinpoche – Editora Talento / Palas Athena

1. Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio…
Estou perdido… sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.
2. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.
3. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está Ainda assim caio… é um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.
4. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.
5. Ando por outra rua.

fev 06

Sobre a Arteterapia

A Arteterapia é ao mesmo tempo um campo de conhecimento e um fazer prático. Enquanto campo de conhecimento localiza-se na interface de diversas saberes – Psicologia, Pedagogia, Arte, Filosofia. Como fazer prático, utiliza-se de recursos artísticos empregados através da relação arteterapeuta/cliente, em contexto terapêutico.

Segundo Ciornai,

Arteterapia é o termo que designa a utilização de recursos artísticos em contextos terapêuticos. Essa é uma definição ampla, pois pressupõe que o processo do fazer artístico tem o potencial de cura quando o cliente é acompanhado pelo arteterapeuta experiente, que com ele constrói uma relação que facilita a ampliação da consciência e do autoconhecimento, possibilitando mudanças. (2004, p.7)

Os recursos artísticos utilizados no processo arteterapêutico devem respeitar alguns critérios importantes para que os objetivos do trabalho sejam atingidos. Em relação aos recursos artísticos, Bernardo refere que,

sua utilização deve estar em sintonia com o tema e questões que se pretenda trabalhar, adequando-se ainda à população, idade e contexto, para atender às necessidades específicas do(s) cliente(s), é de extrema importância que o arteterapeuta fundamente a sua prática e propostas no conhecimento teórico e na vivência pessoal a respeito de cada recurso utilizado em seu trabalho e suas indicações. (2013, p.11)

A Arteterapia pode ser desenvolvida em diversos contextos e por profissionais de áreas diferentes, dentro das profissões que cuidam do humano e dialogam entre si (psicoterapeutas, psiquiatras, fonoaudiólogos, psicopedagogos, arte-educadores). Essa diversidade também abrange a orientação teórica que fundamenta o trabalho arteterapêutico. Por ser um campo tão vasto de possibilidades, a Arteterapia comporta o trabalho individual ou grupal, abrangendo todas as faixas etárias.

O trabalho arteterapêutico deve ser entendido como um processo no qual é possível observar, através da relação arteterapeuta/cliente, as transformações que ocorrem na psique daqueles que participam desse trabalho, e as novas configurações que surgem no cotidiano de cada indivíduo, na construção de histórias de vida onde escolhas autênticas se façam mais presentes. (BERNARDO, 2013)

É interessantes observarmos o quanto a Arte nos permite a expressão de conteúdos internos, o contato e elaboração de sentimentos e vivências, muitas vezes através de uma via não-verbal, abrindo espaço, de forma criativa, para uma compreensão mais ampla dos processos psíquicos em interação com o ambiente. Podemos dizer que a Arte é um caminho de expressão das emoções, caminho este que facilita o encontro de cada indivíduo com o seu si mesmo. É como nos diz Bernardo:

(…) Arteterapia consiste em concretizar fora de nós, através de recursos expressivos, as imagens que nos habitam, o que nos ajuda a perceber o fio que reúne essas imagens numa única narrativa, propiciando a nossa participação consciente na criação de nosso mito pessoal. (2012, p. 20).

O fazer em Arteterapia não exige técnica e nem está ligado a padrões estéticos que facilmente inibiriam a expressão dos conteúdos de cada indivíduo. A liberdade de expressão é a moldura do setting terapêutico, uma vez que é necessária uma atmosfera acolhedora que facilite o despertar da criatividade, livre de julgamentos estéticos ou morais. Tudo o que é produzido é acolhido pela compreensão. (BERNARDO, 2013).

É importante refletirmos sobre o potencial criativo do humano em um momento social onde tudo é tão massificado, onde o tempo é apenas o cronológico, e o script a ser seguido já está dado. Um momento em que as relações se inscrevem no mundo virtual, muitas vezes de forma distante e vazia, onde sentimentos são banalizados e conseguimos perceber a alienação por todos os lados.

Poder se diferenciar da massa e caminhar em busca de verdades próprias, de forma criativa e autêntica é o foco de interesse deste trabalho. Para isso, a Arteterapia é, por excelência, um contexto que permite o resgate dessa criatividade, tão necessária para a busca de novos caminhos, novos contornos, que promovam a saúde e o equilíbrio em todos os sentidos – físico, mental, psicológico e espiritual. Ao acessar seu potencial criativo, o indivíduo está em contato consigo mesmo e isso permite que ele possa trazer à luz as suas questões para serem devidamente trabalhadas no contexto terapêutico.

BERNARDO, P. P. A prática da Arteterapia: correlações entre temas e recursos. Vol. I: Temas Centrais em Arteterapia. 4. ed. São Paulo: Arterapinna Editorial, 2013.

CIORNAI, S. (org.) Percursos em Arteterapia: arteterapia gestáltica, arte em psicoterapia, supervisão em arteterapia. São Paulo: Summus, 2004.

 

fev 06

A importância dos Mitos na Psicologia e na Arteterapia

Por que a Psicologia muitas vezes utiliza os mitos? De que forma eles permanecem significativos para nós? Vocês já perceberam que ao ouvir um mito, alguns conteúdos afetivos essenciais são despertados, eles “mexem” com algo dentro de nós, como se nos reconhecéssemos naquela narrativa, no conflito daquele herói, nos desafios e conquistas da jornada.

Estudamos os mitos porque justamente eles nos dão pistas sobre a nossa psique, eles nos revelam. Eliade define: “O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares. O mito conta com uma história sagrada (…). É esta irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje (…). O mito é considerado uma história verdadeira, porque sempre se refere a realidades. A principal função do mito consiste em revelar os modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas. Compreender as condutas míticas equivale a reconhecê-las como fenômenos humanos, fenômenos de cultura, criação do espírito.”

Para Jung, a sobrevivência dos mitos ao longo do tempo, sua vivacidade tão colada na experiência humana tem uma explicação: “É inevitável que os produtos do inconsciente coletivo, isto é, os quadros que de forma inequívoca acusam caráter mitológico, sejam alinhados dentro de seu contexto histórico-simbólico, pois constituem uma linguagem inata da psique e da sua estrutura, e de forma alguma são aquisições individuais no que se refere à sua forma básica”. Aqui, Jung nos conta sobre os arquétipos, que de forma muito ampla, são matrizes herdadas, que pertencem à toda humanidade, sem um conteúdo definido. O que definirá o conteúdo de cada arquétipo, para cada pessoa, serão suas experiências ao longo de sua história, na relação com o mundo, com o outro e consigo mesma.

Por esse motivo, o estudo do mito é tão importante para Psicologia, pois oferece uma compreensão da psique humana em sua totalidade conciente-inconsciente.

Vamos tomar como exemplo a Jornada do Herói. A estrutura dessa jornada nos aponta para muitas formas de compreender e elaborar a nossa própria jornada na vida. Empreendemos diversas vezes o ciclo da jornada do herói em nosso caminhar, e a cada vez que isso acontece, temos a oportunidade de ampliar a nosso autoconhecimento e autenticar nossos recursos internos no enfrentamento dos desafios diários.
Vejamos: o herói, filho de um Deus com um humano, é o guardião das transformações que ocorrem no contato com o desconhecido, com o perigo, o desafio. Diante disso, alguns padrões antigos e conhecidos se desmancham, dando lugar ao novo, a novas bases de segurança para a personalidade.
Quantas vezes nos percebemos enredados nessa estrutura? Algo que fazia sentido já não ocupa o mesmo lugar de importância, o que gera um desconforto que nos empurra para fora, para o perigo do desconhecido, em busca de algo que nos dê de volta a sensação de conforto, a sensação de que as coisas estão no lugar que deveriam estar. Nessa busca, enfrentamos inimigos (que às vezes podem ser nós mesmos), descobrimos nossos recursos (características que, até então, pensávamos não possuir) encontramos o nosso tesouro (poder pessoal, autoconfiança) e retornamos ao lar, mas agora, transformados pelas experiências vividas no caminho. Com certeza, muito mais preparados para as próximas aventuras que a vida nos oferecer.
Por isso, a jornada do herói é arquetípica e nos fala de trasnformação.
Quando aceitamos partir em função de um chamado, estamos nos colocando em uma posição de abertura para que a vida aconteça, pois vida é transformação, e a cada processo de transformação nos conectamos mais com a nossa essência, para aprendermos a ser quem realmente somos.

fev 06

O POTE VAZIO (Conto chinês)

Há muito tempo, na China, vivia um menino chamado Ping, que adorava flores. Tudo o que ele plantava florescia maravilhosamente. Flores, arbustos e até imensas árvores frutíferas desabrochavam como por encanto.

Todos os habitantes do reino também adoravam flores. Eles plantavam flores por toda a parte e o ar do país inteiro era perfumado.

O imperador gostava muito de pássaros e outros animais, mas o que ele mais apreciava eram as flores. Todos os dias ele cuidava de seu próprio jardim.

Acontece que o imperador estava muito velho e precisava escolher um sucessor.

Quem podia herdar seu trono? Como fazer essa escolha?

Já que gostava muito de flores, o imperador resolver deixar as flores escolherem.

No dia seguinte, ele mandou anunciar que todas as crianças do reino deveriam comparecer ao palácio. Cada uma delas receberia do imperador uma semente especial. – Quem provar que fez o melhor possível dentro de um ano – ele declarou – será meu sucessor.

A notícia provocou muita agitação. Crianças do país inteiro dirigiram-se ao palácio para pegar suas sementes de flores.

Cada um dos pais queria que seu filho fosse escolhido para ser o imperador, e cada uma das crianças tinha a mesma esperança.

Ping recebeu sua semente do imperador e ficou felicíssimo. Tinha certeza de que seria capaz de cultivar a flor mais bonita de todas.

Ping encheu o vaso com terra de boa qualidade e plantou a semente com muito cuidado.

Todos os dias ele regava o vaso. Mal podia esperar o broto surgir, crescer e depois dar uma linda flor.

Os dias se passaram, mas nada crescia no vaso. Ping começou a ficar preocupado. Pôs terra nova e melhor num vaso maior. Depois transplantou a semente para aquela terra escuta e fértil. Esperou mais dois meses e nada aconteceu. Assim se passou o ano inteiro.

Chegou a primavera e todas as crianças vestiram suas melhores roupas para irem cumprimentar o imperador. Então correram ao palácio com suas lindas flores, ansiosas por serem escolhidas.

Ping estava com vergonha de seu vaso sem flor. Achou que as outras crianças zombariam dele por que pela primeira vez na vida não tinha conseguido cultivar uma flor.

Seu amigo apareceu correndo, trazendo uma planta enorme:

– Ping, disse ele, você vai mesmo se apresentar ao imperador levando um vaso sem flor? Por que não cultivou uma flor bem grande como a minha?

– Eu já cultivei muitas flores melhores do que a sua, disse Ping.

– Foi essa semente que não deu nada.

O pai de Ping ouviu a conversa e disse:

– Você fez o melhor que pôde, e o possível deve ser apresentado ao imperador.

Ping dirigiu-se ao palácio levando o vaso sem flor.

O imperador estava examinando as flores vagarosamente, uma por uma. Como eram bonitas! Mas o imperador estava muito sério e não dizia uma palavra.

Finalmente chegou a vez de Ping. O menino estava envergonhado, esperando um castigo. O imperador perguntou:

– Por que você trouxe um vaso sem flor?

Ping começou a chorar e respondeu:

– Eu plantei a semente que o senhor me deu e a reguei todos os dias, mas ela não brotou. Eu a coloquei num vaso maior com terra melhor, e mesmo assim ela não brotou. Eu cuidei dela o ano todo, mas não deu nada. Por isso hoje eu trouxe um pote vazio. Foi o melhor que eu pude fazer.

Quando o imperador ouviu essas palavras, um sorriso foi se abrindo em seu rosto e ele abraçou Ping. Então ele declarou para todos ouvirem:

– Encontrei! Encontrei alguém que merece ser imperador!

– Não sei onde vocês conseguiram essas sementes, pois as que eu lhes dei estavam todas queimadas. Nenhuma delas poderia ter brotado. Admiro a coragem de Ping, que apareceu diante de mim trazendo a pura verdade. Vou recompensá-lo e torná-lo imperador deste país.

 

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