fev 06

Guimarães Rosa

fev 06

Florescer

fev 06

Texto extraído do livro “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” – Sogyal Rinpoche – Editora Talento / Palas Athena

1. Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio…
Estou perdido… sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.
2. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.
3. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está Ainda assim caio… é um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.
4. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.
5. Ando por outra rua.

fev 06

Sobre a Arteterapia

A Arteterapia é ao mesmo tempo um campo de conhecimento e um fazer prático. Enquanto campo de conhecimento localiza-se na interface de diversas saberes – Psicologia, Pedagogia, Arte, Filosofia. Como fazer prático, utiliza-se de recursos artísticos empregados através da relação arteterapeuta/cliente, em contexto terapêutico.

Segundo Ciornai,

Arteterapia é o termo que designa a utilização de recursos artísticos em contextos terapêuticos. Essa é uma definição ampla, pois pressupõe que o processo do fazer artístico tem o potencial de cura quando o cliente é acompanhado pelo arteterapeuta experiente, que com ele constrói uma relação que facilita a ampliação da consciência e do autoconhecimento, possibilitando mudanças. (2004, p.7)

Os recursos artísticos utilizados no processo arteterapêutico devem respeitar alguns critérios importantes para que os objetivos do trabalho sejam atingidos. Em relação aos recursos artísticos, Bernardo refere que,

sua utilização deve estar em sintonia com o tema e questões que se pretenda trabalhar, adequando-se ainda à população, idade e contexto, para atender às necessidades específicas do(s) cliente(s), é de extrema importância que o arteterapeuta fundamente a sua prática e propostas no conhecimento teórico e na vivência pessoal a respeito de cada recurso utilizado em seu trabalho e suas indicações. (2013, p.11)

A Arteterapia pode ser desenvolvida em diversos contextos e por profissionais de áreas diferentes, dentro das profissões que cuidam do humano e dialogam entre si (psicoterapeutas, psiquiatras, fonoaudiólogos, psicopedagogos, arte-educadores). Essa diversidade também abrange a orientação teórica que fundamenta o trabalho arteterapêutico. Por ser um campo tão vasto de possibilidades, a Arteterapia comporta o trabalho individual ou grupal, abrangendo todas as faixas etárias.

O trabalho arteterapêutico deve ser entendido como um processo no qual é possível observar, através da relação arteterapeuta/cliente, as transformações que ocorrem na psique daqueles que participam desse trabalho, e as novas configurações que surgem no cotidiano de cada indivíduo, na construção de histórias de vida onde escolhas autênticas se façam mais presentes. (BERNARDO, 2013)

É interessantes observarmos o quanto a Arte nos permite a expressão de conteúdos internos, o contato e elaboração de sentimentos e vivências, muitas vezes através de uma via não-verbal, abrindo espaço, de forma criativa, para uma compreensão mais ampla dos processos psíquicos em interação com o ambiente. Podemos dizer que a Arte é um caminho de expressão das emoções, caminho este que facilita o encontro de cada indivíduo com o seu si mesmo. É como nos diz Bernardo:

(…) Arteterapia consiste em concretizar fora de nós, através de recursos expressivos, as imagens que nos habitam, o que nos ajuda a perceber o fio que reúne essas imagens numa única narrativa, propiciando a nossa participação consciente na criação de nosso mito pessoal. (2012, p. 20).

O fazer em Arteterapia não exige técnica e nem está ligado a padrões estéticos que facilmente inibiriam a expressão dos conteúdos de cada indivíduo. A liberdade de expressão é a moldura do setting terapêutico, uma vez que é necessária uma atmosfera acolhedora que facilite o despertar da criatividade, livre de julgamentos estéticos ou morais. Tudo o que é produzido é acolhido pela compreensão. (BERNARDO, 2013).

É importante refletirmos sobre o potencial criativo do humano em um momento social onde tudo é tão massificado, onde o tempo é apenas o cronológico, e o script a ser seguido já está dado. Um momento em que as relações se inscrevem no mundo virtual, muitas vezes de forma distante e vazia, onde sentimentos são banalizados e conseguimos perceber a alienação por todos os lados.

Poder se diferenciar da massa e caminhar em busca de verdades próprias, de forma criativa e autêntica é o foco de interesse deste trabalho. Para isso, a Arteterapia é, por excelência, um contexto que permite o resgate dessa criatividade, tão necessária para a busca de novos caminhos, novos contornos, que promovam a saúde e o equilíbrio em todos os sentidos – físico, mental, psicológico e espiritual. Ao acessar seu potencial criativo, o indivíduo está em contato consigo mesmo e isso permite que ele possa trazer à luz as suas questões para serem devidamente trabalhadas no contexto terapêutico.

BERNARDO, P. P. A prática da Arteterapia: correlações entre temas e recursos. Vol. I: Temas Centrais em Arteterapia. 4. ed. São Paulo: Arterapinna Editorial, 2013.

CIORNAI, S. (org.) Percursos em Arteterapia: arteterapia gestáltica, arte em psicoterapia, supervisão em arteterapia. São Paulo: Summus, 2004.

 

fev 06

A importância dos Mitos na Psicologia e na Arteterapia

Por que a Psicologia muitas vezes utiliza os mitos? De que forma eles permanecem significativos para nós? Vocês já perceberam que ao ouvir um mito, alguns conteúdos afetivos essenciais são despertados, eles “mexem” com algo dentro de nós, como se nos reconhecéssemos naquela narrativa, no conflito daquele herói, nos desafios e conquistas da jornada.

Estudamos os mitos porque justamente eles nos dão pistas sobre a nossa psique, eles nos revelam. Eliade define: “O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares. O mito conta com uma história sagrada (…). É esta irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje (…). O mito é considerado uma história verdadeira, porque sempre se refere a realidades. A principal função do mito consiste em revelar os modelos exemplares de todos os ritos e atividades humanas significativas. Compreender as condutas míticas equivale a reconhecê-las como fenômenos humanos, fenômenos de cultura, criação do espírito.”

Para Jung, a sobrevivência dos mitos ao longo do tempo, sua vivacidade tão colada na experiência humana tem uma explicação: “É inevitável que os produtos do inconsciente coletivo, isto é, os quadros que de forma inequívoca acusam caráter mitológico, sejam alinhados dentro de seu contexto histórico-simbólico, pois constituem uma linguagem inata da psique e da sua estrutura, e de forma alguma são aquisições individuais no que se refere à sua forma básica”. Aqui, Jung nos conta sobre os arquétipos, que de forma muito ampla, são matrizes herdadas, que pertencem à toda humanidade, sem um conteúdo definido. O que definirá o conteúdo de cada arquétipo, para cada pessoa, serão suas experiências ao longo de sua história, na relação com o mundo, com o outro e consigo mesma.

Por esse motivo, o estudo do mito é tão importante para Psicologia, pois oferece uma compreensão da psique humana em sua totalidade conciente-inconsciente.

Vamos tomar como exemplo a Jornada do Herói. A estrutura dessa jornada nos aponta para muitas formas de compreender e elaborar a nossa própria jornada na vida. Empreendemos diversas vezes o ciclo da jornada do herói em nosso caminhar, e a cada vez que isso acontece, temos a oportunidade de ampliar a nosso autoconhecimento e autenticar nossos recursos internos no enfrentamento dos desafios diários.
Vejamos: o herói, filho de um Deus com um humano, é o guardião das transformações que ocorrem no contato com o desconhecido, com o perigo, o desafio. Diante disso, alguns padrões antigos e conhecidos se desmancham, dando lugar ao novo, a novas bases de segurança para a personalidade.
Quantas vezes nos percebemos enredados nessa estrutura? Algo que fazia sentido já não ocupa o mesmo lugar de importância, o que gera um desconforto que nos empurra para fora, para o perigo do desconhecido, em busca de algo que nos dê de volta a sensação de conforto, a sensação de que as coisas estão no lugar que deveriam estar. Nessa busca, enfrentamos inimigos (que às vezes podem ser nós mesmos), descobrimos nossos recursos (características que, até então, pensávamos não possuir) encontramos o nosso tesouro (poder pessoal, autoconfiança) e retornamos ao lar, mas agora, transformados pelas experiências vividas no caminho. Com certeza, muito mais preparados para as próximas aventuras que a vida nos oferecer.
Por isso, a jornada do herói é arquetípica e nos fala de trasnformação.
Quando aceitamos partir em função de um chamado, estamos nos colocando em uma posição de abertura para que a vida aconteça, pois vida é transformação, e a cada processo de transformação nos conectamos mais com a nossa essência, para aprendermos a ser quem realmente somos.

fev 06

O POTE VAZIO (Conto chinês)

Há muito tempo, na China, vivia um menino chamado Ping, que adorava flores. Tudo o que ele plantava florescia maravilhosamente. Flores, arbustos e até imensas árvores frutíferas desabrochavam como por encanto.

Todos os habitantes do reino também adoravam flores. Eles plantavam flores por toda a parte e o ar do país inteiro era perfumado.

O imperador gostava muito de pássaros e outros animais, mas o que ele mais apreciava eram as flores. Todos os dias ele cuidava de seu próprio jardim.

Acontece que o imperador estava muito velho e precisava escolher um sucessor.

Quem podia herdar seu trono? Como fazer essa escolha?

Já que gostava muito de flores, o imperador resolver deixar as flores escolherem.

No dia seguinte, ele mandou anunciar que todas as crianças do reino deveriam comparecer ao palácio. Cada uma delas receberia do imperador uma semente especial. – Quem provar que fez o melhor possível dentro de um ano – ele declarou – será meu sucessor.

A notícia provocou muita agitação. Crianças do país inteiro dirigiram-se ao palácio para pegar suas sementes de flores.

Cada um dos pais queria que seu filho fosse escolhido para ser o imperador, e cada uma das crianças tinha a mesma esperança.

Ping recebeu sua semente do imperador e ficou felicíssimo. Tinha certeza de que seria capaz de cultivar a flor mais bonita de todas.

Ping encheu o vaso com terra de boa qualidade e plantou a semente com muito cuidado.

Todos os dias ele regava o vaso. Mal podia esperar o broto surgir, crescer e depois dar uma linda flor.

Os dias se passaram, mas nada crescia no vaso. Ping começou a ficar preocupado. Pôs terra nova e melhor num vaso maior. Depois transplantou a semente para aquela terra escuta e fértil. Esperou mais dois meses e nada aconteceu. Assim se passou o ano inteiro.

Chegou a primavera e todas as crianças vestiram suas melhores roupas para irem cumprimentar o imperador. Então correram ao palácio com suas lindas flores, ansiosas por serem escolhidas.

Ping estava com vergonha de seu vaso sem flor. Achou que as outras crianças zombariam dele por que pela primeira vez na vida não tinha conseguido cultivar uma flor.

Seu amigo apareceu correndo, trazendo uma planta enorme:

– Ping, disse ele, você vai mesmo se apresentar ao imperador levando um vaso sem flor? Por que não cultivou uma flor bem grande como a minha?

– Eu já cultivei muitas flores melhores do que a sua, disse Ping.

– Foi essa semente que não deu nada.

O pai de Ping ouviu a conversa e disse:

– Você fez o melhor que pôde, e o possível deve ser apresentado ao imperador.

Ping dirigiu-se ao palácio levando o vaso sem flor.

O imperador estava examinando as flores vagarosamente, uma por uma. Como eram bonitas! Mas o imperador estava muito sério e não dizia uma palavra.

Finalmente chegou a vez de Ping. O menino estava envergonhado, esperando um castigo. O imperador perguntou:

– Por que você trouxe um vaso sem flor?

Ping começou a chorar e respondeu:

– Eu plantei a semente que o senhor me deu e a reguei todos os dias, mas ela não brotou. Eu a coloquei num vaso maior com terra melhor, e mesmo assim ela não brotou. Eu cuidei dela o ano todo, mas não deu nada. Por isso hoje eu trouxe um pote vazio. Foi o melhor que eu pude fazer.

Quando o imperador ouviu essas palavras, um sorriso foi se abrindo em seu rosto e ele abraçou Ping. Então ele declarou para todos ouvirem:

– Encontrei! Encontrei alguém que merece ser imperador!

– Não sei onde vocês conseguiram essas sementes, pois as que eu lhes dei estavam todas queimadas. Nenhuma delas poderia ter brotado. Admiro a coragem de Ping, que apareceu diante de mim trazendo a pura verdade. Vou recompensá-lo e torná-lo imperador deste país.

 

fev 06

A INFINITA FIANDEIRA Mia Couto, In O Fio das Missangas

A aranha ateia diz ao aranho na teia: o nosso amor está por um fio!

A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.

E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem fim nem finalidade. Todo o bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatais funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.

Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.

– Não faço teias por instinto.

– Então, faz porquê?

– Faço por arte.

Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:

– Minha filha, quando é que assentas as patas na parede?

E o pai:

– Já eu me vejo em palpos de mim…

Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:

– Estamos recebendo queixas do aranhal.

– O que é que dizem, mãe?

– Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.

Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.

– Vai ver que custa menos que engolir mosca – disse a mãe.

E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?

A aranhiça levou o namorado a visitar a sua colecção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.

A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime.

Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?

– Faço arte.

– Arte?

E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos – chamados de obras de arte – tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.

 

fev 06

Separatio – Separar para integrar (Texto 7)

No post anterior, falamos sobre a matriz, que está relacionada ao feminino, à natureza, ao inconsciente como essa força e geradora de vida, que temos acesso em nós, se lembrarmos de buscar essa fonte, de nos conectarmos com ela. Hoje vamos ver uma das operações alquímicas, a “separatio” – que quer dizer separação: é o principio masculino, o princípio do logos, do discernimento, da discriminação
Pensando na teoria junguiana, a matriz é como se fosse um mar de forças latentes, que nada mais é do que o incosciente coletivo. Quando nascemos, estamos mergulhados nesse mar indiferenciado de energias, e aos poucos vamos nos diferenciando. É como se do meio desse mar fosse surgindo uma ilha. Essa ilha é a cosciência, e o centro da ilha corresponde ao Ego.
O Ego é o princípio ativo que vai promover a diferenciação do mar original de energias. O Ego pode ser visto como o herói que mata o dragão, que salva a donzela e enfrenta os monstros.
E o que significa tudo isso?
Nascemos imersos na matriz – que nos oferece energia, força, vida… é a mãe. Mas não podemos ficar no colo da mãe, simplesmente. Temos que nos diferenciar e é o Ego que faz isso.
A primeira diferenciação que fazemos é dividir o mundo em dois: sujeito/objeto, dentro/fora, bem/mal, Ego/não Ego. Polarizar é uma tarefa bem complexa.
Depois de diferenciarmos os opostos, nos identificamos com um dos polos, e o outro vai para o incosciente.
É um ato de amadurecimento suportar todos os opostos, pois eles são as duas faces da mesma moeda. Mas esse amadurecimento vem com o tempo, com as experiências, com nossa abertura para o aprendizado.
Vamos observar a primeira figura:
Vemos o alquimista cortando o ovo filosáfico. O ovo é também uma imagem, um símbolo do início, além da forma arredondada, que também é simbolica. Portanto, cortar o ovo é cortar a unidade primordial. Antes da divisão, não há angústias, tudo é uma coisa só. Mas quando se divide, surgem as angústias, porque nesse momento temos que nos posicionar entre os dois polos. Por isso que essa diferenciação não é uma tarefa fácil. Viver na inconsciência original é como aquela pessoa que não para para pensar, ela se identifica com uma leitura da realidade e não questiona se existe outras possibilidades.ela segue a vida pela receita, pela consciência de sua época. É uma pessoa que não cresce, não amadurece. Segue o fluxo, apenas. Ela não cortou o ovo. O primeiro passo é separar-se dessa situação de indiferenciação. A consciência surge da diferenciação entre os opostos.
A segunda figura apresenta o mito de criação do Egito:
Marie Luise von Franz nos diz que qualquer mito de criação se inicia com a separação: o céu da terra, dividir os animais, a noite do dia. Para criar um ambiente organizado, para passar do caos ao cosmo, é necessário separar, diferenciar as coisas. Não dá para viver em um mundo sem orientação. Essa é a primeira operação. Na figura temos Nut (Céu) e Geb (Terra), o feminino e o masculino. Não cabe contar o mito aqui, mas é importante dizer que ele narra a separação entre céu e terra, assim como a mitologia grega conta a história da separação de Géia (Terra)  e Urano (Céu).
O próximo passo depois da divisão em dois polos, é a divisão em quatro partes. Essa é uma divisão arquetípica – vejam os quatro elementos (terra, fogo, água e ar). O 4 é uma ordenação que anuncia o 5, que é o número que representa a totalidade – o quinto elemento, éter, que é a junção dos quatros elementos.
Precisamos dividir para criarmos identidade, e só depois podermos os juntar novamente, em uma relação madura, por exemplo, com cosciência do que é meu e o que é do outro. quando o relacionamento, seja qual for a sua natureza, cria uma relação simbiótica (indiferenciada), nenhum dos dois crescem. E aqui está a importância da Separatio!
Abaixo, a terceira figura:
O alquimista está fazendo um desenho. Ele busca proporções harmoniosas, busca fugir dos extremos e chegar no centramento (que no linguagem junguiana corresponde ao Self). O trabalho alquímico gera a beleza, a harmonia e a ética, que são virtudes necessárias para um bem viver. Quando usamos bem nossa energia, nos mantemos em princípio homeostático, onde as coisas funcionam ordenadamente, tanto na psiquê quanto no corpo. Mas vivemos em uma sociedade que transforma o ouro em chumbo, que é o contrário do trabalho alquímico – que transforma o chumbo em ouro.
As duas próximas figuras nos apresentam a separação e a integração.

Devemos nos separar/diferenciar, mas somos seres em relação, eu só sou com o outro. Para fazer a integração é preciso trabalhar com os opostos, trabalhar com a sombra, com tudo que não está no consciente. Para integrar é preciso evitar a unilateralidade. E só integrando todos esses conteúdos é que podemos amadurecer e transformar, ao longo do tempo, através das experiências, nosso chumbo em ouro.

 

 

fev 06

A Matriz (Texto 6)

Vamos continuar essa série de textos sobre alquimia e processo de individuação. Estamos em nosso quinto texto. Quem não leu os anteriores, os links estão abaixo:
Iremos agora falar sobre o que os alquimistas consideravam a matriz de seu trabalho e fazer a correlação dessa ideia com a Psicologia Analítica.
A matriz do trabalho alquímico é justamente a natureza, enquanto um princípio feminino. Jung nos diz que o homem se afastou da natureza e dos próprios instintos ao longo do tempo, e por isso é tão importante e urgente recuperar esse contato.E na Psicologia Analítica podemos relacionar a natureza ao inconsciente coletivo, que é o âmbito em que brota nossa consciência.
Na história da Filosofia Ocidental a oposição entre matéria e espírito se faz presente de forma marcante, fato que favorece esse distanciamento da matriz, a qual é vista como um princípio arquetípico que gera, nutre, acolhe e coloca a pessoa em contato com a força do viver.
Esse arquétipo é antiquíssimo e todos os seres vivos participam dessa matriz.
Segundo Jung, quando falta conexão com a matriz arquetípica, ocorre uma falha psíquica. Como exemplo podemos citar pessoas que são vítimas de severas depressões, e chegam a morrer.
Abaixo, uma imagem da representação do cosmo por um alquimista famoso, Robert Fludd. Nessa representação temos os círculos externos que remetem ao céu – o mundo celestial, do espírito. Ao centro, temos o macaco representando nosso lado instintivo e ligando esses dois âmbitos, a figura feminina que simboliza a natureza, a mãe de todas as coisas e a alma do universo.
A seguir, vejam esse documento alquímico, repleto de símbolos que buscam compreender a complexidade do universo – e poderíamos dizer, a complexidade de nosso incosciente! No topo, o corpo de uma mulher, Sophia, Sabedoria. Para Jung, tanto a matéria quanto o espírito não podem ser comprovados pela ciência. A matéria ainda é um mistério. O homem da antiguidade sabia disso e não se incomodava, pois atribuia a essa vivência contornos sagrados. Porém, como já foi dito, o homem moderno perdeu essa conexão, mas o mistério continua. Percebemos que o homem tem sede dos dois lados: ele quer entender a objetividade, mas também precisa do mistério, e o desafio é equilibrar esses dois aspectos. Muitas questões que as pessoas levam para o consultório são decorrentes dessa cisão.
Na próxima imagem, vemos a representação da natureza linda, formosa, caminhando com firmeza, ainda que de forma delicada, e o alquimista a seguindo, caquético, de bengala. “Deixe que a natureza seja seu guia”. Precisamos de uma atitude de colaboração, amizade e reconhecimento de ambas as partes.
Transpondo isso para o contexto terapêutico, podemos pensar em nossos sonhos, naquilo que almejamos. Quando eles brotam de um desejo verdadeiro, precisamos nos deixar guiar por essa natureza (conexão com o sagrado) e assim como os alquimistas, transformar o que surge na psique, a partir dos processos terapêuticos: pela palavra, pela arte, através de relaxamentos. Fazer com que o inconsciente relaxe e apareça uma nova compreensão. Esses processos nos ajudam na construção de sentidos para o que vivemos. Devemos acreditar que as respostas estão dentro de nós, caso contrário nada adianta o gasto de energia na busca de uma “cura”.
Infelizmente, muitas pessoas perderam essa confiança e não acreditam mais. Temos que nos propor, então a natureza se propõe também. Esse é um diálogo que precisa ser mantido.
A imagem a seguir, temos um detalhe do pórtico principal da Catedral de Notre Dame, em Paris. Podemos observar a imagem de uma pessoa que tem a cabeça no céu (contato com as ideias superiores) e os pés plantados no chão (aspecto da realidade mais concreta), fazendo a conexão entre céu e terra. A escada se apresenta como a ordem a ser seguida. O livro, a busca pelo conhecimento, tão almejado. O cedro simboliza o saber real, e é símbolo de poder.
Podemos fazer algumas reflexões sobre essa imagem tão simbólica: todo conhecimento nos confere poder e deve ser bem usado. Os alquimistas alertavam que as trasnformações não acontecima apenas nos processos externos, mas que deveriam ter uma correspondência com os processos internos, para que houvesse um desenvolvimento, acima de tudo, ético.
E para finalizar o texto, a última imagem na qual podemos ver o alquimista mediando a natureza (anjo) e a tecnologia (o forno dentro da construção).
Sabemos que o homem passa por dois nascimentos: o biológico e o nascimento da consciência. Fazer com que a luz da consciência brilhe, se expanda e seja usada de forma positiva é a Opus Magnum de uma vida. Recebemos potências psíquicas da natureza (arquétipos), mas o que fazemos com isso?
Perdemos a confiança nas nossas percepções, na nossa intuição. Tudo tem que ser encaixado e categorizado. Temos um script social a ser seguido e quanto mais buscamos andar nesse trilho, mais distantes estamos da nossa essência.
Como construir essa ponte entre o visível e o invisível? Pois precisamos dos dois, em um equilíbrio perfeito…
Algumas dicas, apenas… há tantos caminhos quanto sua imaginação permitir!
Converse com alguém mais velho, pergunte sobre coisas da vida e escute sua sabedoria;
Peça inspiração para natureza, se conecte com ela, aprecie um lindo pôr do sol ou apenas veja as folhas de uma árvore dançando ao vento;
Dance ao vento, ouça música que te toque a alma profundamente;
Leia poesia;
Passeie por um livro de Arte e visite museus;
Brinque com seu bichinho de estimação;
Faça a comida que você mais gosta e compartilhe com alguém querido;
Resgate rituais, eles tem o poder de acessar nossa força interior;
Conviva mais com o outro, estamos carentes de reuniões de alma;
E por fim, perceba a beleza no cotidiano, pois nele está incluído um poder imenso de sacralidade que não nos damos conta!
Quando esquecemos de todas essas coisas, a vida vai ficando vazia.
Os alquimistas queriam fazer justamente essa reconexão: transformar a matéria simples (cotidiano) em ouro, desde que se veja o ouro presente nessa matéria simples!
Para você pensar:
Nós somos seres criativos, por natureza. E o que fazemos com essa potência que temos?
A criatividade que existe em nós busca sempre um caminho de expressão. De que forma estamos dispostos a abrir esse caminho?

fev 06

A matriz de todo processo (Texto 5)

Nos posts anteriores traçamos a relação entre a Alquimia e o processo psicoterapêutico (clique aqui para ler o post), apresentamos as características da Opus Magnum (clique aqui), a matéria prima (clique aqui) e falamos sobre o vaso alquímico (clique aqui), local onde os alquimistas realizavam a transmutação da matéria, que relacionamos ao ambiente terapêutico ou ao nosso próprio ser.
Dando continuidade a esta série, gostaria de falar um pouco sobre uma questão muito importante: o homem está muito afastado da natureza e dos próprios instintos, e por isso Jung percebeu a relevância da Alquimia para recuperar esse contato. Para a Alquimia, a natureza é a matriz da Opus Magnum, é o princípio feminino. Esse princípio, para Jung, corresponde ao incosciente coletivo, onde brota a nossa cosciência.
Ao percorrermos a História da Filosofia, muito facilmente podemos encontrar a oposição entre matéria e espírito. Mas como podemos explicar a morte sem explicação de bebes saudáveis, ou o fato de um membro do casal morrer e logo em seguida o outro também morre? Para Jung, esses fatos acontecem porque não há separação entre matéria e espírito, o que existe é uma falta de conexão com a matriz, e isso resulta em uma falha psíquica.
A matriz é um princípio arquetípico que gera, nutre, acolhe e coloca o homem em contato com a força do viver. Esse arquétipo é muito antigo e todos os seres vivos participam dele.
Jung chama nossa atenção para esse esquecimento: o homem moderno se afastou dessa matriz, cindiu a relação entre a matéria e o espírito, relegou o corpo à segundo plano. Não estamos falando do corpo perfeito que é buscado nas academias e através de fórmulas mágicas, tão em pauta em nossa sociedade. Estamos falando do corpo que é nossa morada, o corpo que habitamos e que é marcado por nossas escolhas. O corpo que é natureza, e a natureza é a mãe de todas as coisas, e a alma do universo.
Jung nos diz que tanto a matéria, quanto o espírito, não podem ser comprovados pela ciência… a matéria ainda é um mistério! O homem da antiguidade sabia disso e não se incomodava. A matéria/corpo tinha uma conotação sagrada. Mas o homem moderno quer dominar o mistério e definir a matéria a partir de explicações objetivas e comprovadas cientificamente. Acaba-se com o mistério. Cisão entre matéria e mistério.
Contudo, o homem precisa desses dois âmbitos – o conhecido e o mistério a ser conhecido – e poder equilibrar-se entre eles é o que torna a vida interessante. Mas a modernidade cindiu essa dupla e propôs explicações razoáveis para tudo. No consultório psicológico, muitas questões que os pacientes trazem são decorrentes dessa cisão, e o que eles buscam é a responsta pronta, organizadasm, afinal… tudo tem uma explicação!
Mas sabemos que não é bem assim, que nem tudo tem uma explicação. E ficar com essa ideia é bem angustiante. Então, baseada no pensamento de Jung, proponho um caminho possível: uma reaproximação com a natureza, com a nossa matriz. E a matriz se apresenta em nossos sonhos e fantasias com uma veracidade que deve ser considerada. Precisamos fazer como os alquimistas e transformar o conteúdo de nossa psique, a partir dos processos clínicos, em uma compreensão mais ampla acerca de nós mesmos. Isso promove a aproximação de quem somos, ultrapassa a cisão matéria/espírito, amplia qualquer tentativa de explicação teórica, pois abre novas possibilidades de sentido.
É preciso acreditar que as respostas estão dentro de si mesmo, caso contrário, não compensaria o gasto de energia buscando a cura. Infelizmente, muitas pessoas perderam essa confiança…
Vejam que interessante a figura abaixo, de M. Maier. Nela temos uma figura feminina, toda formosa e confiante, representando a natureza e logo atrás a figura de um alquimista debilitado, que usa uma bengala e uma lanterna e segue a natureza, que lhe abre caminhos.
Nessa figura podemos encontrar o caminho proposto acima: um contato maior com a nossa natureza, um diálogo mais íntimo e verdadeiro com essa força que habita dentro de nós!
De que forma? Eis algumas dicas:
Conversar com um antepassado, rezar e pedir inspiração para a natureza, ouvir uma música que lhe toque profundamente, fazer a leitura de uma poesia ou um romance, folhear um livro de arte para apenas ver suas imagens. Estar presente, no aqui e agora, pois no cotidiano está incluído um poder imenso de sacralidade.
Vamos nos aproximar dessa potência criativa, abrir espaço para novos sentidos, descobrir nossos recursos de transformação e construir um caminho mais autêntico, que represente nosso viver muito mais do que teorias prontas. Que essa natureza criativa seja nosso guia!

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